Joyspan: a arte de viver plenamente após os 50
O termo Joyspan foi recentemente cunhado pela médica e gerontóloga Kerry Burnight, que lecionou por 18 anos na Escola de Medicina da Universidade da Califórnia, em Irvine. Em seu novo livro, “Joyspan: The Art and Science of Thriving in Life’s Second Half” (Joyspan: A arte e a ciência de prosperar na segunda metade da vida, em tradução livre), ela propõe que viver muito não significa necessariamente viver bem. Mais importante do que a longevidade é gostar genuinamente da vida que se tem.
O conceito de Joyspan não se refere apenas à expectativa de vida (lifespan) ou à expectativa de vida saudável (healthspan), mas sim ao tempo vivido com verdadeira satisfação, alegria e propósito. Para a especialista, o envelhecimento não precisa ser visto como uma fase de declínio inevitável, mas sim como uma oportunidade para descobrir novas formas de felicidade e realização, mesmo em meio a desafios de saúde ou mudanças sociais e emocionais.
Após acompanhar milhares de pacientes idosos, Kerry Burnight identificou que existem quatro atitudes fundamentais para expandir essa fase de alegria e satisfação – atitudes essas que são possíveis para todos, independentemente da idade ou condição física: Crescer, Adaptar-se, Doar e Conectar-se.
A seguir, veja como aplicar cada um desses princípios em seu cotidiano:
1. Crescer: mantenha viva a curiosidade
Manter-se curioso e continuar aprendendo são essenciais para preservar a saúde mental e a vitalidade cognitiva. Pesquisas científicas demonstram que adultos mais velhos que seguem aprendendo algo novo apresentam melhores níveis de memória, raciocínio e saúde emocional.
Para exercitar esse crescimento constante, Burnight recomenda fazer uma lista de coisas que sempre despertaram seu interesse, por mais incomuns ou inusitadas que possam parecer. Pode ser algo simples, como participar de um grupo de caminhada, ou algo mais audacioso, como aulas de bateria, fotografia ou dança.
Outra maneira prática de cultivar a curiosidade é adotar uma mentalidade de aprendizado constante. Algumas universidades, inclusive no Brasil, oferecem oportunidades especiais, descontos ou cursos gratuitos para alunos idosos. Isso possibilita que se mantenha ativo intelectualmente e engajado socialmente.
Um exemplo prático citado por Burnight é seu irmão Russ, que após se aposentar, descobriu-se entediado. Ao perceber que sua comunidade precisava de professores substitutos, Russ decidiu, aos 65 anos, voltar à sala de aula. A experiência não só renovou sua rotina, como lhe trouxe novos amigos e propósito.
2. Adaptar-se: encontre novas formas de aproveitar a vida
Adaptar-se é um ingrediente fundamental para uma vida satisfatória e saudável na maturidade. Mudanças são inevitáveis ao longo da vida, mas a forma como reagimos a elas define a diferença entre frustração e felicidade.
Burnight compartilha a experiência pessoal de sua mãe, Betty, de 96 anos, que adorava ir ao supermercado. Quando deixou de dirigir, ao invés de se frustrar com a perda dessa independência, ela aprendeu a usar aplicativos como o Instacart, permitindo que continuasse desfrutando da experiência de escolher seus produtos preferidos, ainda que virtualmente.
A adaptação passa também por valorizar aquilo que melhorou com a idade. Talvez hoje você se importe menos com a opinião alheia, tenha mais sabedoria para resolver problemas ou seja menos impulsivo diante de conflitos. Refletir sobre esses avanços ajuda a enfrentar novos desafios de maneira mais positiva.
Burnight recomenda que, quando enfrentarmos mudanças inevitáveis, devemos pensar em alternativas práticas. Alguns de seus pacientes trocaram corridas por natação após problemas articulares, e outros começaram a ouvir audiolivros para contornar limitações visuais.
3. Doar: compartilhe o que você tem de melhor
Pessoas que têm uma longa Joyspan costumam adotar naturalmente uma postura de contribuição. Segundo Burnight, a transição é simples, mas poderosa: passar de uma mentalidade centrada no “o que podem fazer por mim?” para “o que eu posso fazer pelo outro?”.
Doar não precisa envolver dinheiro ou recursos materiais. Seu tempo, paciência, sabedoria ou habilidades são igualmente valiosos. Por exemplo, se você é bom em organizar ambientes, pode ajudar alguém que esteja passando por uma fase difícil, como a perda de um cônjuge. Se gosta de animais, pode atuar como voluntário em uma ONG local ou num abrigo.
A chave está em identificar algo que lhe traga prazer e satisfação ao ajudar. A contribuição social gera conexões genuínas e uma sensação profunda de propósito. No Brasil, existem iniciativas parecidas com o programa Create the Good, da AARP norte-americana, que ajudam a identificar oportunidades de voluntariado em sua região.
4. Conectar-se: invista em relacionamentos
Pesquisas demonstram que relações sociais sólidas são essenciais para a saúde física e emocional, especialmente à medida que envelhecemos. O isolamento social pode ter efeitos tão negativos quanto fumar ou não se exercitar.
Burnight reconhece que construir ou manter conexões pode ser desconfortável e desafiador, especialmente para quem já sofreu perdas ou mudanças radicais na vida social. No entanto, o esforço vale a pena.
A tecnologia pode ser uma grande aliada. Muitos idosos têm usado ferramentas como Zoom ou WhatsApp para realizar encontros virtuais, partidas de jogos de tabuleiro ou assistir séries e filmes com amigos e familiares. Até mesmo algo simples, como pedir aos netos para ensinar a jogar Minecraft, pode reforçar laços familiares e promover aprendizado mútuo.
Outro conselho valioso é fazer perguntas genuínas durante conversas. Demonstrar interesse pelo outro fortalece os relacionamentos e torna a interação mais prazerosa e significativa para ambas as partes. Tomar nota dos assuntos discutidos e voltar a mencioná-los futuramente demonstra atenção e cuidado, o que melhora a qualidade das relações.
Conclusão: a vida pode (e deve) ser alegre após os 50
O conceito de Joyspan, portanto, vai além de simplesmente viver mais ou manter-se saudável. Trata-se da arte de viver plenamente, escolhendo ativamente como reagir aos desafios, mantendo-se curioso, adaptável, generoso e conectado.
Ao adotar esses quatro princípios essenciais – Crescer, Adaptar-se, Doar e Conectar-se –, não importa a idade ou condição física, todos podem transformar essa fase da vida em um período de profunda satisfação pessoal, realização e felicidade.
A vida após os 50 anos pode ser, na verdade, a etapa mais gratificante de todas, desde que estejamos dispostos a cultivar ativamente nosso Joyspan.